Dia do Ceará foi comemorado com debate, exposições e homenagens nos equipamentos culturais da Secult

Os 216 anos de emancipação do Ceará foram comemorados com debate, exposições e homenagens. Durante todo o sábado (17/1), o Governo do Estado, por meio da Secretaria da Cultura (Secult), proporcionou uma programação especial nos equipamentos culturais de Fortaleza. No Sobrado Dr. José Lourenço, fotógrafos cearenses debateram sua arte e sua linguagem e filmes sobre a cultura do Estado. Já o Museu do Ceará trouxe uma nova exposição de xilogravuras de João Pedro de Juazeiro. No Theatro José de Alencar, uma visita guiada comandada pelo bailarino Hugo Bianchi e uma homenagem a dois personagens de destaque da cultura cearense – o jornalista e dramaturgo Guilherme Neto e o poeta Mário Gomes – ganharam aplausos do público. Outras ações também aconteceram em Aquiraz, primeira capital do Estado.
Logo pela manhã, o programa de debates “Café do Zé”, no Sobrado Dr. José Lourenço, ganhou uma edição especial ao receber fotógrafos cearenses de várias gerações – como Gentil Barreira, Henrique Torres, José Albano, Wagner Kiyanitza, Fernando Jorge, Priscila Smith e Beatriz Mendes -, que compartilharam com o público suas experiências de vida e conversaram sobre a produção da fotografia no Estado. Quem esteve presente também pôde visitar a exposição de fotografias em cartaz no equipamento cultural da Secult, com trabalhos de autores cearenses e peruanos ocupando os três andares da galeria. A exposição, que segue até 28 de fevereiro deste ano, acontece em parceria com o festival Encontros de Agosto.
Durante o debate, a curadora do Sobrado Dr. José Lourenço, Dodora Guimarães, destacou a importância do equipamento. “O Sobrado é a casa da arte cearense”, disse aos presentes. Ela aproveitou ainda para mencionar a data especial. “Hoje, no Dia do Ceará, em que comemoramos a emancipação política do Estado, aproveito para lembrar que vivemos no semiárido, mas tiramos vantagem disso. Temos a luz natural. Temos a paisagem e o espírito sertanejo. Estou feliz de estar com vocês e quero conhecer os jovens fotógrafos. A bola agora é dos jovens, que devem lutar pelo ideal da criação e da superação artística”.
A fotografia no Ceará
Já os fotógrafos convidados aproveitaram para falar da situação da fotografia na contemporaneidade, especialmente em Fortaleza. Professor de foto da escola Travessa da Imagem, Wagner Kiyanitza mencionou que “a fotografia está bastante forte na cidade” e que existem “vários movimentos acontecendo na cidade”. Também deixou um recado aos jovens que ingressam na arte de fotografar. “Invistam em tempo pra fazer seus ensaios. O ensaio é importante porque nele conhecemos o trabalho da pessoa. Ali se mostra um trabalho consistente. É o que faz o fotógrafo crescer como profissional”.
A coordenadora do Encontros de Agosto, editora e produtora cultural Patrícia Veloso, avaliou que o momento do Café do Zé é complementar à própria exposição de fotografias. “A ideia dos encontros é justamente a troca. A conversa é uma proposta de escuta, de ouvir quem está fazendo a fotografia. Aqui, me coloco como insistente para que essa arte chegue a novos públicos e a outros cearenses”.
Ainda no Sobrado Dr. José Lourenço, na tarde deste sábado, aconteceram exibições de filmes do “Cineclube Sobrado”, com curtas-metragens referentes a temáticas diversas do Estado e da capital, como “Fortaleza Antiga e Nova (1923-1963/1982/2005)”, “Perfil: Nirez”, entre outras produções.
Xilogravuras no Museu do Ceará
O sábado também foi de inauguração da exposição “Impressões do Sertão Cearense”, no Museu do Ceará. Reunindo xilogravuras coloridas e em preto e branco, instrumentos de trabalho, objetos e matrizes das obras do artista João Pedro de Juazeiro, a mostra surge como oportunidade para quem quer conhecer mais sobre a arte, cultura e história cearense. “Aqui encontramos um Ceará por completo. Há o sol ardente do nosso Estado, dá para perceber também o sertão quando vem a estiagem. Aqui vocês também encontram a revolução de 1914, a Sedição de Juazeiro, o retrato do Padre Cícero, Patativa…”, comenta o mestre xilógrafo.
Pesquisador da cultura popular e curador da exposição, Gilmar de Carvalho descreve o sertão retratado nas xilogravuras de João Pedro. “Não é um cartão postal e não foi feito para agradar. Ele evidencia a secura, mas mostra a possibilidade da alegria, manifesta quando surgem as primeiras chuvas, quando é tempo de festa ou dos folguedos. O sertão de João Pedro é essencial, econômico e despojado de toda retórica visual inútil”.
TJA: homenagens
A primeira grande homenagem deste sábado no Theatro José de Alencar foi ao próprio equipamento cultural, cujo aniversário também é celebrado com atividades gratuitas todo dia 17. Foi o bailarino e coreógrafo Hugo Bianchi que expressou sua relação com o teatro, numa visita guiada com muitos participantes no começo da tarde.
À noite as homenagens se voltaram a dois ícones da cultura cearense mortos recentemente, em dezembro de 2014: o jornalista e dramaturgo Guilherme Neto e o poeta Mário Gomes. Amigos, parentes e admiradores de ambos os homenageados tiveram uma noite de sarau e de serenata, que resgatou a vida boêmia dos personagens.
O início da programação aconteceu ao som da Hora do Angelus, em que o tenor Franklin Dantas interpretou a tradicional “Ave Maria”. Logo após, o ator Ricardo Guilherme ganhou a atenção do público ao ler um texto que descrevia o poeta da Praça do Ferreira, Mário Gomes. “Certa vez perguntaram ao Mário se ele não escrevia mais poesia. E ele respondeu: ‘Não escrevo, eu sou o poema'” – leu Ricardo Guilherme, que também relembrou quando conheceu o poeta.
“Nos conhecemos na Casa de Juvenal Galeno. Eu com 16, ele com 24 anos. Lá, recitávamos poesia e tínhamos um sonho de publicá-las. Mas Mário era diferente, com seu terno e seu charuto pouco comuns entre nós. Ele tinha um jeito só dele de se expressar”, lembra Ricardo. Enquanto compartilhava seu texto, ao lado estava projetada uma imagem do poeta, um “monumento ambulante da cidade de Fortaleza”.
Guilherme Neto
As homenagens, em texto, música, poesia e memória seguiram, mas, dessa vez, para outro personagem ilustre da cultura cearense, o jornalista e dramaturgo Guilherme Neto. Foi Ricardo Guilherme que também conduziu grande parte das referencias ao homenageado, seu tio. Fez um resgate da história de vida do múltiplo talentoso que foi Guilherme Neto, lembrado pela vida boêmia, pelo pioneirismo na imprensa cearense e pela obra dedicada ao teatro.
Ele também foi lembrando por ter colaborado para revelar inúmeros nomes de nosso cenário cultural, como o cantor Evaldo Gouveia, que esteve presente e fez questão de cantar seus sucessos como “Sentimental” e “Esquina do Brasil”. “Guilheme Neto foi um grande companheiro de programas de rádio. Estou muito feliz por estar aqui. Estou por causa dele. Foi o meu primeiro amigo. Ele queria me levar para o Rio de Janeiro, pois dizia que lá eu seria um grande sucesso”, comentou o grande compositor cearense.
Também estiveram presentes os membros do “Clube dos Gatos” – confraria de amigos que se reunia, há 15 anos, com a presença de Guilherme Neto -, como o cantor Newton Padilha e o mestre do violão Zivaldo Maia. O comunicador Augusto Borges também fez questão de compartilhar algumas palavras sobre o homenageado. “Tenho gratas recordações do Guilherme. Durante 50 anos trabalhamos juntos, na mesma sala. Ele era de outra galáxia, de tão bom que ele era, porque sabia perdoar e pedir perdão”, disse emocionado.
O Dia do Ceará
O dia 17 de janeiro faz parte do calendário oficial de eventos do Estado por meio da Lei nº 13.470, de 18 de maio de 2004, que instituiu a data comemorativa referenciando o dia em que o Ceará ganhou autonomia da Capitania de Pernambuco, em 1799, tornando-se administrativamente independente. A emancipação do Ceará foi garantida por Carta Régia assinada pela Imperatriz de Portugal, D. Maria I, em virtude do crescimento populacional e econômico que a antiga capitania do Ceará apresentava em 1799.
A lei estadual determina a realização anual de um evento oficial em Aquiraz, primeira capital do Estado, por ocasião da data. Além disso, órgãos e entidades da administração estadual, assim como as escolas da rede pública estadual de ensino, devem promover o Dia do Ceará.