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Com apoio da Secult, exposição fotográfica “Caminho das Abelhas” destaca trabalhos de seis fotógrafos atuantes no Ceará

Com apoio da Secult, exposição fotográfica “Caminho das Abelhas” destaca trabalhos de seis fotógrafos atuantes no Ceará

 

A sensibilidade de seis fotógrafos – Iana Soares, Markos Montenegro, Paulo Gutemberg, Sérgio Carvalho, Silas de Paula, Vanessa Andion – sob curadoria do diretor de arte Ademar Assaoka está disposta em 48 imagens na exposição “Caminho das Abelhas”, aberta nesta quarta-feira, 20/1, seguindo em cartaz até 19/3 no Espaço Cultural Correios Fortaleza (R. Senador Alencar, 38 – Centro, Fortaleza/CE), com documentações visuais em torno do Sertão de Irauçuba. A exposição tem apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult). Os fotógrafos retratam o cotidiano, a força e a resistência do sertanejo frente à seca e ao processo de desertificação no município cearense.

“Caminho das Abelhas” tem patrocínio dos Correios, via Lei Rouanet através do Ministério da Cultura (MINC) e também foi contemplado com o Prêmio de Fotografia Chico Albuquerque/2014 pela Secretaria de Cultura do Ceará (SECULT-CE) do Governo do Estado do Ceará. A mostra promove ainda atividades paralelas no Espaço Cultural Correios, como o lançamento do livro sobre o projeto; visitas guiadas diárias por monitores; interações formativas com alunos de escolas públicas e de projetos sociais e culturais, sob coordenação pedagógica e apoio do SESC-CE, além de oficina de fotografia com smartphones para funcionários dos Correios e ao público.

Está prevista a ida da mostra “Caminhos das Abelhas” ao município de Irauçuba, após o encerramento da exposição fotográfica no Espaço Cultural Correios, que também receberá duas obras para o acervo permanente do Espaço Cultural.

Irauçuba na visão dos seis fotógrafos

O município cearense de Irauçuba (que significa “Caminho das Abelhas” na língua tupi) traz as idiossincrasias de ser o local mais seco doEstado, mesmo sem a pecha de ser o mais pobre do Estado. A economia nas tramas do artesanato, balança ainda como a “capital da rede” e equilibra a ancestral agricultura e renitente pecuária implantada no século XVII, hoje reduzida a poucas cabeças de gado, entre riquezas envolventes de narrativas humanas e grande valor cultural em pleno sertão nordestino.

Nos 1.461,253 km2 de área, Irauçuba, segundo os cientistas, após séculos de devastação, está prestes a viver, literalmente, um deserto, ou melhor um (de)sertão mais árido que a própria imagem que dele fizeram recorrente em narrativas nordestinas. Os fotógrafos Iana Soares, Markos Montenegro, Paulo Gutemberg, Sérgio Carvalho, Silas de Paula, Vanessa Andion, junto ao curador Ademar Assaoka, ressaltam ainda, além do valor paisagístico, o engajamento documental para o desenvolvimento social e econômico da região e, despertam a percepção da caatinga como potencial de valoração cultural. Através da fotografia, contribuem para reflexão de estratégias de políticas públicas e do desenvolvimento sustentável, além de divulgarem potencialidades culturais e estéticas da região.

Sensibilizar a sociedade

A proposta de “Caminho das Abelhas” é dar visibilidade e conhecimento público à paisagem causticante mas, também, humana e rica em cultura e história, sensibilizando a sociedade para o desolador processo de desertificação que acontece na região”, lembra o curador Assaoka. A fotógrafa e produtora da mostra, Vanessa Andion, reflete sobre as experiências em Irauçuba ao revelar que ‘”o sertão é do tamanho do mundo’, imenso e seco. E no silêncio que arrasta o tempo que é só seu, as nuvens que passeiam com vagar carregam o dia que parece, nunca se vai acabar. E a vizinha distante que me habitou por tantos anos, agora para, olha pro céu e descobre-se rendida. Uma grande paixão, essa!”.

O professor e fotógrafo Silas de Paula aponta, sobre o trabalho fotográfico na localidade: “Há 30 anos fotografei a região de Irauçuba no Ceará, terra assolada pela seca que exigia visibilidade maior, olhar cuidadoso dos gestores públicos e dos brasileiros sobre a tragédia local. Mas, por diversas razões o trabalho ficou, praticamente, engavetado. Há dois anos, participo com outros fotógrafos do projeto sobre a região – “Caminho das Abelhas”– e percebi que pouco mudou. A seca permanece e as condições da população em quase nada diferem das presenciadas há décadas. O grupo procurou conhecer a desertificação progressiva e a vida das pessoas na convivência com ela, utilizando a fotografia como forma de análise e registro do processo e acreditando que o documental é um instrumento de construção social, cujo significado surge nos contextos organizacionais e históricos de diferentes mundos do trabalho fotográfico”.

Pioneiro na proposição do projeto, Sérgio de Carvalho, um piauiense quase “nascido no meio do sertão”, relembra que “em 2014, quando começamos a nos aventurar por Juá, Missi, Olho D’água, Riacho do Meio e Cacimba Salgada, comunidades rurais de Irauçuba, era como se estivesse numa viagem de volta ao sertão que já foi meu”. “A paisagem continua a mesma da minha memória de menino, não fossem as antenas parabólicas e as cisternas de hoje. Não me refiro ao chão rachado pela seca duradoura, e sim ao silêncio, à solidão e ao tempo contidos no campo de futebol vazio, na cruz solitária na beira da estrada ou na sinceridade do tempo que marca profundamente o rosto do sertanejo. O que busco neste trabalho, talvez fruto da memória visual, é retratar esse silêncio, essa solidão e esse tempo, que se misturam, se confundem e se ampliam numa imagem monocromática e imaginária de afeto e saudade”, aponta Sérgio de Carvalho.

Sertões internos e externos

Na perspectiva do registro histórico na linguagem fotográfica contemporânea documental, o processo de desertificação que acontece em Irauçuba, a apenas 180 km da capital Fortaleza, traz também ao projeto o olhar de Paulo Gutemberg, que “foca sertões internos e externos. Mas, Irauçuba, nosso sertão externo, não é famoso como o de Canudos ou o de Juazeiro do Norte, muito embora seja considerado pela Unesco uma das maiores e críticas áreas de desertificação no mundo. Essa condição nem foi determinante para nossa escolha. Há muito tempo já é pacífico que não existe um só sertão, mas inúmeros sertões, embora a maioria das narrativas assim o declare. São, pois, vários sertões, alguns vastos, vastíssimos, outros nem tanto e até próximos à costa litorânea civilizada, como o de Irauçuba, agora apresentado ao grande público”.

O projeto “Caminho das Abelhas” se alarga em destinos aos profissionais da imagem, artistas, professores, estudantes, historiadores, sociólogos, ambientalistas, jornalistas, organizações governamentais e não governamentais. Como sintetiza a jornalista e fotógrafa Iana Soares sobre as integrações no projeto e mostra fotográfica, “entre as estratégias que inventamos para tornar a vida possível, o encontro é a mais eficaz e generosa. A fotografia é um caminho fascinante, tanto para aprender a enxergar como para arriscar formas de dizer e compartilhar o que foi visto. Este é um projeto que celebra o encontro e o sertão, profundamente marcado nos olhos das pessoas que nos atravessaram. É necessário voltar sempre para arriscar futuros nesse território infinito. Este Caminho é feito de luta e festa”.

O fotógrafo e integrante do projeto Markos Montenegro afiança sobre os desafios: “Mais que apenas ‘Caminho das Abelhas’, Irauçuba foi um caminho de retorno a memórias e sentimentos de outrora. Nascido no coração de um sertão rachado e cheio de fé, os altos contrastes do sol a pino me faz lembrar dos tempos de menino. Tempos  descalços, correndo no chão de terra batida, onde pedras e galhos se transformavam em heróis de grandes aventuras. Nossa busca pelas ‘insólitas’ regiões de Irauçuba, não era pelo simples registro de uma realidade que se perde pela falta de chuva, mas sim pela busca da origem de todos que ali estavam, pelo encontro com o sertanejo dentro de cada um. Irauçuba somos nós, o deserto da terra se faz como o deserto dentro do ‘peito’ e da memória”, resume em extensivos convites.

Apoios

“Caminho das Abelhas” no processo de pesquisa documental fotográfica e na extensão da exposição no Espaço Cultural Correios Fortaleza também contou com apoios e parcerias do Instituto da Fotografia (IFoto), em Fortaleza, e da Universidade Federal do Ceará (UFC) através da Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Comunicação, além da proposição pela Travessa da ImagemEscola de Fotografia e Arte. O Instituto Oziris Pontes deu apoio na divulgação junto à comunidade e para realização da produção fotográfica. Ainda em contribuição à expansão do projeto e objetivos dos Correios, a exposição deve seguir à zona rural de Irauçuba (Juá), após o encerramento da mostra no ECC.

SERVIÇO: Exposição e atividades do projeto “Caminho das Abelhas”. De 20/1 a 19/3, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, aos sábados, das 8h às 12h, no Espaço Cultural Correios Fortaleza (R. Senador Alencar, 38 – Centro – Fortaleza). Entrada franca. Fone para agendamentos de visitas guiadas (85) 3255 7142.

Facebook da exposição: “Caminho das Abelhas”:https://www.facebook.com/events/1564696377155543/

Facebook do projeto “Caminho das Abelhas”: https://www.facebook.com/caminhodasabelhas/?ref=notif&notif_t=fbpage_fan_invite

Instagram: #caminhodasabelhas