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A influência estética de Moreira Campos é tema de mesa-redonda com Ana Miranda na Bienal

“A novidade, a síntese, o implícito e a sugestão são as características que Moreira Campos mais admirava nos textos literários”, assim a escritora Ana Miranda começou sua fala durante a mesa-redonda que abordou o legado estético deixado pelo escritor cearense homenageado na XI Bienal do Livro. Para conversar sobre o tema, estiveram presentes ainda o professor de literatura Adriano Espínola e o escritor Jorge Pieiro, que participou como mediador da conversa.

Lembranças sobre a vida e a obra do contista cearense emergiram durante toda a conversa. Uma apresentação detalhada sobre a estética dos seus contos e algumas histórias pessoais sobre o contista reunidas pelos convidados fizeram do momento uma verdadeira homenagem aos 100 anos de Moreira Campos, comemorados na Bienal.

A escritora Ana Miranda, autora de “Dias e Dias”, “Boca do Inferno” e “O Retrato do Rei” não nega sua admiração pelo contista homenageado. “Precisamos manter como  tradição a leitura e releitura de seus contos. Acho que o Moreira ensinou os escritores a fazer uma prosa límpida e formosa. Isso que mantém viva sua obra”, avaliou.

O professor Adriano Espínola aproveitou para lembrar seus momentos junto ao contista, que ele chamava de “tio Zé Maria”. “Fui espécie de filho literário dele. Ele sempre me puxava a orelha quando ia mostrar meus primeiros poemas e escritos. Eu ia lá na sua casa, na Av.Carapinima”, comenta. Sobre o perfil do escritor, Espínola acrescenta: “Ele era um admirável contador de histórias. Contava com muita graça, de um jeito só dele. Há muita originalidade em Moreira Campos”, lembra.

Moreira e Pedro Salgueiro

A relação entre Pedro Salgueiro e Moreira Campos foi relembrada pela escritora Ana Miranda. Segundo a autora, Pedro Salgueiro é um dos novos herdeiros do contista cearense. “Embora tivesse grande admiração por Moreira, Pedro Salgueiro demorou 10 anos para se aproximar do contista por causa de sua timidez”, contou. Quando Salgueiro o viu pela primeira vez, um frio na barriga lhe acometeu. Depois de tempos, a admiração pelo contista ficou explicita, com a publicação do conto “Raga-mortalha”. Para Miranda, os escritores se aproximam principalmente pelo lirismo.

As influências de Moreira

A influência de Machado de Assis nos textos de Moreira Campos também foi retratada pela escritora. “Ambos gostavam de envolver o lado psicológico dos seus personagens. Tinham ainda uma descrença pela humanidade. Nos seus textos, abordam nossa impotência diante das circunstâncias da vida, principalmente sobre nossa última circunstância: a morte”, relata.

Moreira gostava também de citar a frase de Scott Fitzgerald: “O romantico sabe preservar o essencial”, de acordo com Espínola. Por “essencial” Moreira entendia o drama humano, segundo o professor de literatura. Entre outros escritores admirados pelo contista cearense estão o russo Anton Tchekhov e os brasileiros Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Guimarães Rosa.

Uma dura parede

“Certa vez cheguei ao tio Zé Maria e comentei: tio, literatura é ficção, fantasia, portanto é uma grande mentira, né?”, contou Adriano Espínola, de certa forma provocando Moreira Campos. A resposta do contista, então, foi enfática. “Pode ser uma mentira, como na fábula de La Fontaine, mas a verdade humana existente ali, no texto, é mais dura do que essa parade”, afirmou Moreira batendo no concreto.