Notícias

Em artigo, Fonsêca faz balanço das ações de controle da dengue

Em artigo, Fonsêca faz balanço das ações de controle da dengue

Controle da dengue: responsabilidade permanente de todos

Manoel Fonsêca

Temos observado casos de dengue no Ceará e no Brasil desde 1986, por diferentes tipos de vírus, o que torna a população cada vez mais exposta a casos graves e óbitos, ao ser acometida pela doença mais de uma vez. Na epidemia em 1994, no nosso Estado, a proporção era de 1 caso grave para 3200 casos de dengue clássico ou leve. Em 2001 esta proporção caiu e tivemos 1 caso grave para 383 casos leves. Este ano, a proporção diminuiu significativamente de 1 caso grave para 58 casos leves, o que vem aumentando o risco de ocorrência de casos graves e óbitos.

As epidemias de dengue acontecem, geralmente, após a introdução de um novo sorotipo de vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3, DENV-4) ou reintrodução do mesmo sorotipo de vírus após um tempo de ausência ou baixa circulação e sempre que o índice de infestação predial (presença da larva do mosquito em casas e prédios) esteja acima de 1%. A circulação viral e, portanto, a transmissão da doença, só é possível com a presença do mosquito adulto infectado. Por este motivo é que podemos ter no mesmo período, no Estado, surtos epidêmicos em determinados municípios, quando o índice de infestação predial está cima do aceitável, e municípios em que não ocorrem surtos epidêmicos há vários anos, quando o controle de vetor é eficaz.

A vigilância epidemiológica é o primeiro componente do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD) e tem como objetivo acompanhar a curva epidêmica da doença, semana a semana, identificar os municípios e áreas de maior ocorrência, os grupos populacionais mais afetados, investigar em profundidade os óbitos ocorridos, manter o Ministério da Saúde informado, elaborar o diagrama de controle da epidemia e o mapa de risco por município e apontar estratégias de controle.

O controle de vetores é o segundo componente do Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD). Quando ocorre, portanto, um surto epidêmico de dengue em um determinado município, geralmente o trabalho de controle do vetor pelos agentes de endemias e pela população foi insuficiente para manter os índices de infestação predial pelas larvas do mosquito abaixo de 1% e este trabalho precisa ser intensificado. Em situações especiais, se houver um número elevado de casos e um índice de infestação predial alto, justifica-se o uso do fumacê (Ultra-baixo volume – UBV), na tentativa de eliminação química do mosquito adulto transmissor da doença.

A atenção à saúde é o terceiro componente do PNCD. Para evitar óbitos por dengue é fundamental a organização dos serviços de saúde para fazer a classificação do risco, o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno e adequado dos doentes, o que pressupõe a capacitação dos profissionais de saúde para o manejo clínico correto das pessoas afetadas.

A mobilização e comunicação social, o quarto componente, visa o esclarecimento da população sobre a doença e os meios de prevenção, através de entrevistas aos meios de comunicação, boletins epidemiológicos, notas técnicas, alertas, folhetos educativos, campanhas institucionais. Tem também como objetivo a articulação com setores da sociedade civil e instituições públicas de interesse, visando estimular atitudes que fortaleçam a consciência sanitária e ambiental e a ação da própria população para o controle mecânico do vetor: vedar caixas d’água, limpar quintais e calhas, destinar corretamente o lixo e eliminar garrafas, pneus velhos e outros utensílios que possam acumular água e transformar-se em potenciais criadores dos mosquitos.

O QUE FOI FEITO

Desde outubro do ano passado, quando o Ministério da Saúde divulgou o mapa de risco de epidemias por dengue-1 no país, após a epidemia em São Paulo, Minas e outros Estados em 2010, a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará vem intensificando o desenvolvimento dos quatro componentes do PNCD.

Vigilância epidemiológica

A vigilância epidemiológica adaptou, já em outubro de 2010, o mapa de risco do Ceará, apontando os municípios prioritários para o controle. Elaborou notas técnicas, alertas, o Boletim Epidemiológico Semanal, com análise da situação em todos os municípios, preparou todo o suporte técnico para a realização dos cursos para médicos e enfermeiros, manteve plantões epidemiológicos nos finais de semana e feriados, deu suporte de informações para as oficinas clinicas com o Dr. Erik Martinez, articulou-se sistematicamente com as vigilâncias epidemiológicas municipais para a investigação de casos e óbitos e os Núcleos de Vigilância Epidemiológica Hospitalares. Destacamos, portanto, o esforço e dedicação dos profissionais de Vigilância Epidemiológica, do LACEN e do SVO pela competência na investigação de casos e óbitos, o que deu transparência e veracidade às informações, e pela capacidade de monitorar e emitir sinais de alerta para a ação.

Controle do mosquito

No segundo componente, controle do vetor, a Sesa estimulou a atualização dos Planos de Contingência dos municípios considerados prioritários, distribuiu regularmente inseticida e larvicidas, quando liberados pelo Ministério da Saúde, para todos os 184 municípios, capacitou supervisores de endemias para o uso correto de novos larvicidas, distribuiu telas para vedação de caixas d’água, em metade da quantidade de metros adquiridos pelos municípios e desenvolveu um trabalho intensivo de apoio aos municípios em surtos epidêmicos, destacando-se a realização de cinco ciclos de fumacê em toda a Fortaleza e em mais de uma dezena de municípios. Estas operações anteciparam a quebra da transmissão e o controle dos surtos epidêmicos, reduzindo significativamente os casos a partir de maio, persistindo esta tendência em Junho e julho.

Atenção à saúde

No terceiro componente, a atenção à saúde, a Sesa, através da Coordenadoria de Promoção e Proteção à Saúde, reproduziu e distribuiu material educativo elaborado pelo Ministério da Saúde para os 184 municípios, em especial 3.000 livretos “Manejo Clínico de dengue em Adulto”, “Manejo Clínico de dengue em Pediatria”, 5.000 cartazes sobre “Classificação de Risco em dengue” 50.000 folders e banners sobre “Sinais de Alarme”. Realizou 2 cursos de capacitação para médicos e enfermeiros, acolheu o médico Erik Martinez, um dos maiores especialistas do mundo em dengue, que coordenou “Oficinas Clínicas” nos Hospitais Albert Sabin, São José, Gonzaguinha José Walter, na Escola de Saúde Pública (ESP-CE) para profissionais do PSF de Fortaleza, um colóquio cientifico com Infectologistas no Auditório Waldir Arco-verde na Sesa, e uma vídeo conferência para o PSF do interior, através do setor de Tele medicina da Faculdade de Medicina/UFC. Foram ainda realizados cursos rápidos sobre Manejo Clínico pela ESP-CE em municípios com maior ocorrência de óbitos. Foram ampliados 30 leitos para dengue no Hospital Universitário, disponibilizados 20 leitos no Hospital São José.  

Comunicação e mobilização social

Em relação à comunicação social a Sesa estabeleceu uma linha de ação favorável à relação transparente e de acesso sempre aberto com a mídia, que reforçasse a prestação de serviço e orientações coletivas e fortalecesse a consciência cidadã, através de entrevistas, notas técnicas, boletins epidemiológicos, alertas e implantação da sala situacional virtual georreferenciada para os 184 municípios cearenses, atualizada diariamente, postada no site oficial da Sesa “www.saude.ce.gov.br”. A mobilização social foi intensificada através de reuniões ampliadas do Comitê Estadual de Controle do Dengue, das caravanas contra a dengue, envolvendo os 184 municípios, por região, em plenárias abertas convocando todos os setores para a ação; o estimulo à responsabilidade social, com destaque para a FIEC e o SESI, responsáveis pela criação dos Comitês de Controle da dengue nas indústrias e distribuição de milhares de botons, panfletos, DVDs do Dr. Dráuzio Varela sobre dengue. Várias instituições públicas, tais como, Secretaria da Educação do Estado, Semace, Cagece, novamente em parceria com a FIEC e SESI, realizaram vários eventos mobilizando professores e alunos do 2º grau. A Assembléia Legislativa do Estado realizou audiência pública e aprovou projeto de lei do Deputado Wellington Landim sobre a criação de Comitês de Controle do Dengue nas Escolas Estaduais. Este movimento interinstitucional e da sociedade civil destacou-se como o de maior magnitude e transcendência desde o início das epidemias de Dengue em 1987.

Mesmo com estas ações de apoio aos municípios realizadas pela Sesa-CE, com suporte do Ministério da Saúde, tivemos mais uma epidemia de dengue pelo vírus do sortipo-1, com 51 óbitos e mais de 34.000 casos confirmados. Houve uma concentração de casos em Fortaleza (21.272) e também de óbitos em Fortaleza (22) e Caucaia (5).
Defendemos que sejam feitos todos os esforços e recursos liberados pelo Ministério da Saúde para a pesquisa e produção de vacinas eficazes contra a dengue, pois a tendência observada nos últimos 25 anos é que podem ocorrer epidemias periódicas na maioria dos Estados brasileiros, tanto do Sudeste, do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com número elevado de casos graves e risco aumentado de óbitos, como ocorreu em São Paulo e Minas em 2010 e agora no Rio de Janeiro e Ceará. As vacinas irão tornar desnecessário o uso sistemático de toneladas de larvicidas e inseticidas, liberar milhões de reais e milhares de trabalhadores de saúde, os agentes de endemias, para outras ações de promoção e proteção de saúde coletiva.

Queremos destacar que na maioria significativa de municípios cearenses não ocorreram óbitos e observou-se um número reduzido de casos de dengue, graças aos esforços de seus prefeitos, secretários de saúde, agentes de endemias e profissionais da atenção básica e hospitalar.
Enquanto as vacinas contra dengue não são descobertas e produzidas em escala suficiente para proteger a população brasileira, temos, todos, governos, sociedade civil e profissionais de saúde, de envidar esforços que favoreçam um ambiente saudável e livre dos vetores transmissores da dengue.

Manoel Fonsêca é coordenador de Promoção e Proteção à Saúde da Sesa